Os lampionistas
A publicação de hoje surge de uma espécie de impulso, quando me deparei com um postal que mostrava, num pequeno pormenor que talvez passasse despercebido a muitas das pessoas que o vissem: um candeeiro a gás plantado no que parece ser o ainda pouco urbanizado caminho que unia o Freixo aos Guindais, bem antes da construção das avenidas Gustavo Eifell e Paiva Couceiro e perto do local onde o pilar do lado portuense da ponte de São João, hoje se encontra.
O texto que parcialmente transcrevo é da autoria do gráfico Manuel Pedro e foi publicado n'O Tripeiro em 1947 (3.º vol. da 5.ª série, p. 282):
«(…) Os lampianistas!… Oh! Estou mesmo a vê-los de boné de pala, bicheiro ao ombro, -- comprida vara com uma pequena luz no topo, resguardada por um pequeno invólucro de folheta, correndo ruas fora, em ziguezagues, acendendo, ora este lampião, ora aquele.
Todos os dias, ao anoitecer, os lampianistas, reuniam-se em determinados locais e, à hora regulamentar, dispersavam-se pelas ruas das suas áreas a acender os lampiões, para no dia seguinte, manhã cedo, os apagarem. Os pontos de estacionamento eram: Cordoaria, Bessa, Foz, Aguardente, Bonfim, Santo André, Batalha e Cancela Velha.
De verão, o modo de vida de lampianista era razoável; porém, de inverno, ter de romper, à chuva, enfrentar fortes ventanias, suportar o frio gelado, cortante, das manhãs, era, positivamente, um martírio. E por tão espinhoso serviço ganhavam estes humildes servidores da companhia do gás, 300 reis diários!…
Foi-se, há dezenas de anos, o Porto das noites silenciosas, tristes, escuras, quase sem luz. Luzes mais vivas, de poder luminoso mais intenso, apareceram com enorme agrado de todos os tripeirinhos, dando por esse facto alegria à cidade e segurança aos seus moradores.
Outrora, quando becos e ruas da cidade eram alumiados por pesados e feios lampiões de ferro, a azeite, luz que mal deixava distinguir qualquer vulto a alguns metros de distância, sempre que uma família saía à noite, era obrigada a fazer-se acompanhar do seu lampião.
(…)
No dia em que el-rei D. Pedro V, esse bondoso e insondável monarca, completou dezoito juventudes (16 de setembro de 1855), e em cuja data se realizou estrondosamente a sua aclamação, foi que pela primeira vez os moradores da cidade do Porto viram as suas ruas iluminadas a gás.
No Ouro, a pouca distância da margem do rio, foi colocado o gasómetro, aparelho destinado a receber o gás. Mas, em virtudo dos avultados prejuízos causados à empresa pelas enchentes do rio Douro, que por várias vezes inundaram o citado gasómetro, a Companhia Portuense de Iluminação a Gás planeou, como medida preventiva, construir aos outros.
(…)
Com que saudade recordamos também as noites escuras de há cinquenta anos, sem estrelas a brilhar no firmamento, silenciosas, que amedrontavam as pessoas tímidas, não as deixando sair de casa, receosas de quaisquer perigos.
Nestes tempos, épocas da minha infância, as ruas, de noite, não tinham a animação e o deslumbramento das de hoje. Depois da meia-noite tornavam-se solitárias e só deambulavam por elas os notívagos, os boémios, a polícia, as patrulhas da Guarda Municipal e os mal ajeitados guardas-noturnos, que, de bigodos fartos, grandes chanfalhões à cinta e de bonés enterrados até às orelhas, nos davam um aspeto caricato.
Calcorrear as ruas do burgo tripeirinho de há dez lustros, sem montras vistosas, iluminadas, candeeiros públicos de luz tremeluzente, só por grande precisão.
Contudo, aos sábados e domingos, a altas horas da noite, a rapaziada jovem daqueles tempos, em grupos e acompanhada de variados instrumentos de corda, não deixava de ir fazer tocatas às suas namoradas, que de vez em quando terminavam tristemente, em virtudo do inesperado aparecimento da polícia que, depois de lhes aquecer bem as costelas e lhes por os instrumentos em pedaços, os levava a passar o resto da noite nas nojentas e incomodativas tarimbas do Aljube Velho.
Mas a eletricidade, rainha de todas as luzes, substituindo a iluminação produzida pelo gás, com os velhos bicos Papillon e depois Auer, com camisas de amianto e chaminés de mica, acabou com as noites soturnas e concorreu enormemente para o desenvolvimento da indústria e comércio portuenses.
Comparar a luz de 1855 da cidade da Virgem - cujos lampiões, para acender e limpar, tinham de se baixar, com a atual luz elétrica, é somente espantoso!…»
O texto acusa a data, pois se Manuel Pedro tivesse acesso ao Porto atual e à sua iluminação, certamente que muito escuras acharia as ruas da cidade na sua própria época e ainda mais espantoso o brilho da cidade de hoje!
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NOTA: Este texto foi originalmente publicado em outro blogue, mas sem registo no waybackmachine para aqui o comprovar. A última atualização, de pormenor, é de 20/06/2026.



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