A água dos Franciscanos

O Convento de São Francisco foi uma das primeiras instituições a possuir água canalizada na cidade do Porto e de constante boa qualidade. O seu cano atravessou séculos, vindo o mesmo a ser usado pela Associação Comercial do Porto, entidade a quem foi entregue o extinto convento, até ser finalmente substituído pela "água da companhia".

O documento que abaixo parcialmente transcrevo reporta ao meado do século XVIII, quando decorriam já dois séculos e meio de urbanização de uma boa parte do espaço atravessado por aquele encanamento, com a Rua das Flores como o seu ponto alto, mas ainda com um grande troço encerrado por baixo das hortas localizadas na atual Avenida dos Aliados e Praça da Liberdade, que poucos anos depois seriam igualmente urbanizadas pela Junta das Obras Públicas, com o Bairro dos Laranjais. Este documento reporta precisamente ao tempo em que os arruamentos já lá se encontravam, ainda que certamente com parca construção.

pormenor de um postal antigo mostrando a Avenida dos Aliados e Praça da Liberdade, locais atravessados pelo cano dos franciscanos


«(…) Representa aos reais pés de V. Majestade o padre Guardião de São Francisco em seu nome, e de todos os religiosos do mesmo convento sito na cidade do Porto em o qual se acha depositada a água que nasce na Quinta do Laranjal fora da mesma cidade; a qual água é de V. Majestade, pola ter depositado no sobre dito convento o senhor rei D. Fernando, de feliz memória, para ele e todos os seus reais descendentes, que houvessem de ir à dita cidade, e como esta passa por muitas ruas e cerca dos padres de São Domingos até chegar ao mesmo convento, sendo todo os distrito de seu nascimento até chegar ao Convento de Santo Elói em algum tempo tudo hortas, e campos, e hoje existe tudo arruado, do que nasceram muitos prejuízos ao aqueduto, não se podendo contar ainda, com as provisões reais, que lhe aplicaram para o remédio (…), em atenção aos roubos que se fazem nas pias, e raízes das árvores, que as superam por causa das quais sendo a água pura se acha imunda, e dispersa sem chegar ao convento dos suplicantes, pois com a rutura dos aquedutos se junta o dano de estar quase perdida, e para se evitar este dano é necessário fazerem-no de novo e reedificar a arca, obra sem dúvida a que não pode chegar a pobreza dos suplicantes; e como os reais ascendentes de V. Majestade se dignaram de fazer o convento digno depósito da dita água, e a desejam conservar *na sua cristalina pureza*.

Suplicam humildemente a V. Majestade se digne dar lhe uma esmola para fazer o dito convento que fique perpétua, mandando dar a dita esmola de algum dos cofres da dita cidade…»


O governo de D. José despachou que o Provedor da Comarca deveria informar-se, ouvindo os oficiais da mesma câmara (17/10/1750). É também curiosa a menção à proteção real dada à água dos Frades Menores, à qual voltarei…


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FONTE: Tombo da Água do Convento de São Francisco do Porto (à guarda do Arquivo Distrital do Porto).

Publicado originalmente Aqui.

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